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"Morte por tesão."27/8/2007
Outro dia nublado e agora havia um prédio de cores suaves, eu apenas precisava observar e reservar cada janela a uma etapa do dia, o tempo limitador e as criaturas repetindo ações. Nuvens de mau humor era a grande afetação daquele idoso,estava cego.Alguns retratos amarelados figuravam sua parede desbotada,garrafas de uísque intocadas e uma temática que só me apontava um verbo:sobreviver.Acredito que eu e ele amávamos cada pedaço daquele apartamento com cheiro de terceira e derradeira idade,me apeguei novamente a sensação familiar de cada instante que o observava,ouvindo a televisão ele se fazia ainda jovem,queria estar no auge novamente ou desejava a morte,dois grandes olhos cegos e vagos,talvez desde criança ou um acidente ferroviário,sempre preferi os navios e a vontade dos uísques me conduzia a simular o gosto de cada copo cheio de pó,estava ali como voyeur,fatídico destino que para o poço de visões sem ação me arrastou,lamentei.
Cama e móveis coloridos, um ambiente moderno e talvez agradável para meninos-meninas-e-até-animais, eu ficava um tanto quanto perdida nos símbolos e cega nas portas, estava ali também e não podia recusar. Inevitavelmente me atiro nessas vidas alheias com sabores distintos e em cada anotação tudo fica mergulhado,as paredes encardidas de vinho e esperma,sujos e jovens.Enfermeira e de olhos castanhos-profundos-latentes,bonita e condizente com os padrões de magreza-idade-beleza,estava diante e participava da moda nas ruas,perdida e só,mais uma de calças jeans e blusas em tom pastel,uma a mais.Baixo e de careca,proprietário das paredes coloridas e dono provável do esperma que as manchava,arquiteto e fã incorrigível de New York Dolls,a temática ali era a banda,observava a fama não como conseqüência e sim como um território a ser explorado,entretanto era um músico medíocre e um projetista conceitual,fatalidades e as divergências na série querer-poder.
Juvenil era todo aquele quarto, sempre iniciar pela adjetivação e ir traçando cada rabisco torto na tela azul, uma camiseta branca e a maldita canção ao fundo. Exatos quinze anos naquele dia, fervilhando em hormônios e indecisões, talvez precisasse de um novo corte de cabelo, não preferia nem meninas sequer meninos ou eletrodomésticos, a condição de apatia era incomoda e ele nunca se livrava da prisão, quinze anos e nenhum cigarro. Seu avô era cego e aquele apartamento não estava de acordo com suas necessidades, uma contrabaixo que não devia ser tocado, o garoto ousava e a canção continuava, chama-se: “morte por tesão”.
Excitados ao entardecer, o céu era roxo e coberto de nuvens, ela vestida de branco, unhas curtas e cabelo preso, os olhos fixos no vazio interior, corria dentre os sinais coloridos de cada rua, corria e ele estava lá a esperando, descompassado e burro no próprio sonho, escutava um disco de seus mentores e pensava no sexo que viria a seguir, apenas o estar-dentro-dela sem nenhuma palavra, os gemidos que soariam bonitos e os suores que escorreriam salgados. A televisão tem sentido vago,apenas escutar e não poder delirar com aquelas formas e cores expostas,era o universo sem toque e guiado por vozes,um cordão o puxava,ele pensava que era um velho-inútil-sustentando-por-uma-corda,marionete da própria tristeza, in-vá-li-do.Acordes péssimos,não culpava a falta de talento e sim a sorte que s esvaia a cada banho,devia ter nascido antes para morrer agora,desafiando as virtudes,overdose de remédios ou até um amor sem nenhuma sobriedade,in-sa-tis-fa-ção.
Há um ponto em que todas as retas se tocam, histórias cruzadas como cheques, tudo atribuído em valores, era o gozo intenso e a falta de lençol. As paredes do banheiro existiam para abrigar manchas,assim como a mesa foi concebida para repousar,havia uma lógica em sentir cada pedaço do alojamento usando o corpo,era ele e ela,eram eles,e nunca um apenas,não havia amor romântico.Ele desejava vingar suas frustrações na transa que ocorria e ela queria apenas esquecer o asco dos doentes terminais,corriam nus e não havia afeto algum,era apenas preencher ou ilustrar a vida,gemidos-esperma-almofodas.
Culinária não lhe interessava, a filha sumiu no mundo e deixou um menino com a estranha obsessão por música, malditos ouvidos que ainda relembravam uma vida além daquela já concebida, recebia um dinheiro que compensava o abandono, mas nunca devolvia a luz roja dos bordeis que freqüentavam quando jovem,moças bonitas e ele enxergando,acontecia naturalmente no interior. Imprestável a ponto de se desligar no tempo,parou no suspiro sob o caixão da esposa,ainda tinha cabelos,escolheu ser conduzido pelo fluxo.A empregada vinha duas vezes na semana,arrumava os cômodos ou simplesmente enganava o idoso nefasto,talvez restasse algum sonho,fumava na sacada e ele sentava em frente à caixa iluminada,em silêncio ambos imploravam um resgate,os sinais de fumaça voando junto as cortinas,a morte significava redenção,forma e desejo.
O primeiro acorde e depois todos os outros, cantava junto e sentia um êxtase, berrava alto e ainda assim ouvia os gemidos, flutuava e dizia “eu queria que ela morresse de tanta satisfação/eu queria que ela morresse de morte por tesão”, era o caldeirão e o poço, estava livre e exausto, acordes e o despertar, pulsava junto com aquela sinfonia mágica que completava o barulho dos carros. Esgotados se vestiam,o sexo continuaria durante a semana,dias de chuva e noites chuvosas,enquanto houvesse tempo e capacidade,é preciso se auto-completar.O barulho dos carros,a televisão ligada,uma bocado de fumaça do segundo cigarro que ligeiramente impregnava todas as janelas, “eu queria ser um selvagem/pra ser o rei da sacanagem”, a morte.O céu estava igual,o agência imobiliária funcionando,alguns homens aproximaram-se,ela após o preenchimento e de cabelos ainda molhados tentava cumprimentar uma ex-paciente,a bala perdida que encontrou o corpo,sem alertas os sinais apagavam-se,não havia hospital,apenas barulho.O sangue era o fluxo,satisfação-visão-frustração e enfim a redenção,ela merecia.
Antípodas
por Matilda.

"The wine is red and poison is blue." (5)O gramofone que eu amava me abandonou. (6)"Morte por tesão." (4)"faster pussycat kill,kill." (4)Tainted life. (4)"Whatever words I say, I will always love you." (1)Nenhum herói. (2)Only Happy When It Rains. (1)Mundo mágico chamado solidão. (1)Edição Especial. (1)Susto. (2)Cut (1)
Comentários
--- - 27/8/2007 18:08:00
splatter babe
hazel - 28/8/2007 12:30:09
Bang, Bang, she was shot down.
L. - 2/9/2007 22:34:48
Muito bom, você tem estilo próprio.
Vejo Jack Kerouac e Beat Generation em seus textos.
Te...
Izze. - 4/9/2007 18:15:13
Opa. Sim.
Adorei, vamos assim dizer.
Como foi dito por L., "te invejo!" ^^
Tens bastante...