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"The wine is red and poison is blue."25/6/2007
Não me proponho a ser nada mais do que uma voyeur descomedida, sendo assim acabo caindo em vidas abruptamente e ás vezes meus ouvidos furtam conversas. Observava-os há um certo tempo, todos os dias estavam lá com sorrisos e uma ingenuidade que me irritava, muitas vezes me ocorria o desejo de impor pavor naquilo que sentia ao enxergá-los, despiam-se em assuntos e nunca mostravam a ferida,talvez fossem puros.
Ela,representante de todas essas meninas que vemos diariamente e nos oferecem um meio sorriso de insegurança e despego,talvez gostasse de ver a fumaça no ar,mesmo sabendo que estava a poluir,adorava as brincadeiras que significavam um instante e nada além.Cabelos pretos não-naturais e aqueles dois grandes olhos que juntamente com o sorriso destruíam qualquer argumento, uma expressão quase fixa de desespero agradável, caminhava dentre os carros e os cabelos faziam um movimento que até me assustava, apenas observar.
Ele, ícone de desprezo para tantas moças, não era capaz de despertar sorrisos sequer de aquecer olhos, apenas um rapaz com óculos e a camisa sempre amassada.Avesso a caminhadas enquanto dirigia seu carro se sentia noutra esfera, ali não havia nada além do fascínio pela velocidade e a paz de desistir, porque enquanto pilotava sua maquina desistia de perceber as calças esburacadas e o lixo, estava salvo.Rosto longo e quadrado,gostava mais da mão esquerda e era destro,enquanto bebia movimentava os pés freneticamente,apreciava o gesto de estar bêbado.
Viam-se diariamente num bar qualquer,e lá estava eu a observa-los na tentativa de roubar um instante ou até merecer um olhar,não era a função,mas o ego grita e eu não resisto.Deliciavam-se ao discutir livros-bandas-memórias,acredito que tenham se encontrado ainda na infância,talvez na escola ou no hospital,a intimidade transparecia a cada gole e estavam sempre dispersos.Ela evitava olhar fixamente aquela camisa amarrotada e se perguntar onde raios ele andou para que aquilo lhe acontecesse,talvez outra o tivesse agarrado e jogado longe sua roupa,talvez não tenha ferro de passar,optar por desviar o pensamento num cigarro.Ele percebe aquele jogo e acha justo não desvendar as regras,sempre acreditou e percebeu a mulher como tirana,mas Ela não era,aliás poderia-se resumi-la numa simples palavra: neutra.Tossia enquanto a fumaça percorria os olhos e reclamava da poluição,o mundo melhor era concebido no seu quarto,ali era a realidade.
Subitamente olham-se,ela sorri por completo e aquilo o faz desviar,fraco eu penso,no entanto não devo julgar.Ele percebe um volume maior por baixo da blusa, algo que seus olhos não conseguem captar com nitidez, e então nasce a necessidade de questionar:
-É vermelho?
-O sol pode ser,eu sempre desconfiei de ácido por trás dessas lentes e armação nerd.
-Seu sutiã.
-Quer me comer, é?
-Não, é que você não é o tipo de pessoa que deve usar essas cores, sempre tão neutra e distante.Sutiã vermelho é muito estranho.
Assim iniciou um silêncio, pensavam em falar da paisagem, porém tudo era sujo e carregado demais para aquele instante.Resolveram aproveitar a tensão.Ela pensou que poderia ser desejo e ofensa unidos naquela observação, queria jogar a mesa pra cima dele e arrancar um pedaço, depois sairia caminhando em linha reta com um sorriso e o cigarro constante.Ele desejava um espelho, não sentia vergonha, mas devia estar vermelho, precisava enxergar seu rosto.
-Não quero comer você, mas te encontrei antes do banho e a blusa era rosa e sutiã não notei,sempre usou roupas que te deixassem neutra,você é assim.
-Eu não sou neutra, nos vemos antes e depois do banho.Vontade de usar vermelho, isso me faz mais ou menos puta?!
-Acho que nada faz você puta, é neutra e não insiste.Nos vemos faz tempo e eu canso, mas venho religiosamente aqui,observar suas roupas de sempre.
Então Ela tenta gritar e pensa até num desmaio forjado, talvez outro a quisesse, mas ela o queria,desejava arrancar e pisotear com os pés sujos de lama aquela camisa já amarrotada.Colocou as mãos na borda daquela mesa frágil e a empurrou,sorriu e grudou-lhe um beijo.Ele não assimilava nada daquilo, talvez realmente fosse a cor da lingerie,optou por não participar do beijo e afastou-a com um empurrão.Ela segurou aquele braço magro e queimou com cigarro, ao menos queria deixar a marca, saiu andando os prantos enquanto ele lambia a ferida e pagava a conta,não se podia sair ileso.Depois de tanto tempo se perderam por aí, hoje ela não gosta mais de apreciar a fuligem brincando no ar,prefere retocar a maquiagem e o vermelho do cabelo,queria pintar o corpo inteiro,descobriu-se.Chovia muito e eu observava segurando um velho guarda-chuva que não resistiria a tantas rajadas de vento,Ele percorria a avenida em seu carro e não percebia,queria seguir acreditando que estivesse salvo,não podia estar neutro.A chuva era tão grave quanto às crianças que molhavam seu dever-de-casa, pois não ouviram mamãe falar sobre a tempestade,tentou seguir e acabou por se chocar com uma dessas árvores antigas,o carro ficou destruído e dele escorreu um liquido qualquer que misturou-se a chuva dando ao asfalto um tom molhado e rosado, hemorragia.
Antípodas
por Matilda.

"The wine is red and poison is blue." (5)O gramofone que eu amava me abandonou. (6)"Morte por tesão." (4)"faster pussycat kill,kill." (4)Tainted life. (4)"Whatever words I say, I will always love you." (1)Nenhum herói. (2)Only Happy When It Rains. (1)Mundo mágico chamado solidão. (1)Edição Especial. (1)Susto. (2)Cut (1)
Comentários
judyplaster - 25/6/2007 13:14:32
Amiga, esse texto me fez refletir tanto...Sobre a ironia em forma de sangue e sobre o nunca...
hhhh - 25/6/2007 21:42:25
lux is pink
foda!
Thaís - 11/7/2007 20:37:53
AMEI teu conto. e acho indispensável um elogio à altura: escolheu as palavras mais perfeitas;...
Jorge - 11/7/2007 21:23:39
"O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites";
Albert Camus
cbarzilha - 15/3/2009 22:31:36
desbocada, sexy e diferente, pois reflete uma nova maneira de escrever e não aquela coisa de...